O mercado indie aprendeu a compensar suas limitações com muita inventividade, criando jogos que exploram ideias e mecânicas bem criativas.

Uma característica marcante do mercado dos jogos independentes é a liberdade de explorar ideias que os estúdios AAA veriam como crime. Enquanto eles tem dinheiro e tecnologia de ponta para usar, os desenvolvedores indie tem limitação nesses dois departamentos, e precisam usar a criatividade para fazer os seus jogos acontecerem.

Sem as pressões e a alta demanda de Ubisofts e Rockstars, não é raro que a gente veja os jogos indies explorando... Loucuras. Os exemplos variam. Eles podem ser West of Loathing, um RPG preto e branco desenhado a mão com mecânicas divertidas e comédia pastelão que lembra muito os filmes do Jackie Chan. Ou pode ser o famoso Iron Lung, que te coloca a bordo de um submarino navegando um oceano de sangue numa lua alienígena, o que fica mais assustador por causa do gráfico pixelado.

Isso inspirou a Pessoa que Vos Fala™ a reunir alguns games pra, tal como o título diz, mostrar que os jogos indies andam por uma variedade de gêneros e ideias e estilos, porém falam o mesmo idioma: a capacidade de encantar com a sua criatividade.


Under The Island - Nostalgia gostosa que cria a própria história


Tudo que remete aos anos 90 mexe muito comigo, e Under The Island tem duas coisas da época: RPG de ação com estética clássica. A jovem Nia precisa salvar a casa dela antes que seja tarde, explorando um mundo cheio de monstros e mistérios, uma coisa quase Grounded. Isso prova que os anos 90 continuam vivos e fortes, inspirando um game com jogabilidade de Zelda/Pokemon e cara de Pokemon/Tiny Toon Adventures: Buster's Hidden Treasure.


Reptilian Rising - Exagerado, e tá tudo bem com isso


O futuro da humanidade está ameaçado por dinossauros futuristas, e a defesa da humanidade é formada por figuras como Robin Hood, Einsten, e Cleópatra. Repitilian Rising é tão absurdo e tão bom por juntar esses nomes em um jogo de estratégia que a ideia cativa ainda mais. Não bastando, os desenvolvedores se inspiraram na estética anos 80, fazendo jogo virar um De Volta para o Futuro meets Jurassic Park. Agora eu imagino coisas malucas como um DLC que adicione jogadores da NFL ao game.


Warhounds - Não é sobre copiar, é sobre ter boas referências


Jogos que citam referências famosas andam uma linha sensível entre inspiração e o plágio. O caso de Warhounds aponta para o primeiro cenário, pelo menos a primeira vista. Inspirado em XCOM e Jagged Alliance, o game junta um grupo de mercenários em missões que acontecem na África de um futuro alternativo. Parece uma descrição genérica, mas o tempero vem aqui: esses mercenários tem uma aura dos filmes de ação das antigas, uma coisa bem Os Mercenários mesmo. Sem contar que os cenários são bonitos, me passou a atmosfera de Rambo e similares.


A Investigação Póstuma - Noir com vibe de Brasil


Não é porque um jogo é brasileiro que vai ser imediatamente interessante, mas esse aqui é. Investigação Póstuma é um jogo noir totalmente preto e branco muito bonito, que leva o visual de época até para os menus - perfeito pra deixar a experiência ainda mais imersiva. Mas calma, porque melhora: o game tem como inspiração Brás Cubas, o clássico de Machado de Assis. O game leva você para o Rio de Janeiro de 1937pra investigar o assassinato de Brás Cubas, com um porém. O seu personagem está preso em um loop temporal do qual não vai sair enquanto você não encontrar a verdade. 


Under The Island, Reptilian Rising, Warhounds e Investigação Póstuma são diferentes entre si por vários motivos. Um aposta na nostalgia, outro no exagero tipo desenho animado, o outro volta na era clássica dos filmes de ação, e ainda tem um noir brasileiro. Ainda assim, eles falam o mesmo idioma: o da liberdade criativa.

Não é que os estúdios de jogos AAA estejam errados por explorar ideias e mecânicas mais seguras. Essa é a natureza desse segmento da indústria: a preferência por coisas grandiosas é maior, a receptividade a novas ideias costuma ser menor, certos temas e estéticas mais conhecidos comunicam melhor.

Já os indies podem misturar dinossauros com Einstein, usar referências lendárias pra criar uma nova aventura, e transformar Machado de Assis num jogo de detetive. É uma característica que mantém o cenário indie cheio de cores e formas. Não precisa de rivalidade: cada um tem seu espaço, e quem mais ganha com isso são os jogadores.