Numa era onde o always online virou o novo normal, estes games brasileiros se destacam justamente por não precisarem de um servidor para brilharem.

Vivemos uma era na qual os desenvolvedores brigam por cada segundo da atenção dos jogadores. O resultado disso é nítido: games assumindo cada vez mais o formato de live service, e o always online virando uma regra que de tempos em tempos gera polêmica. Se você consegue bons números ao longo do tempo, está tendo sucesso. Qualquer coisa fora disso geralmente é vista com olho torto.

Por causa disso uma pergunta é recorrente: o single player morreu? 

Esse debate surge a cada lua azul principalmente porque muitos jogadores veteranos viveram a era dos 8/16 bits, onde o single player era rei. Mas entenda: a tecnologia era limitada, e hoje a gente tem velocidade de internet que há uns 20 anos não era nem sonho. Apesar disso, não, o single player não morreu. Ele continua firma e está em todo lugar, seja em The Legend of Zelda: Tears of the Kingdom, Clair Obscur: Expedition 33, ou Hollow Knight: Silksong

Muitos desenvolvedores ainda entregam boas experiências baseadas na dinâmica de jogar sozinho. Isso é algo que a gente também observa na indústria brasileira, que cada vez mais aparece como um celeiro de boas ideias e projetos, principalmente os que destacam o individual. Como uma eterna curiosa, a Pessoa Que Vos Fala™ traz games nacionais que tal como a Fernanda Montenegro, provam que o single player ainda está aqui.

Litany


Comandando heróis que devem enfrentar criaturas nascidas das trevas para selar a porta ancestral, e dar fim a uma maldição, Litany é um roguelike de construção de decks. Jogadores escolhem entre 6 heróis diferentes, cada um tendo seu próprio deck e artefatos, e uma estratégia. Este deck fica mais forte após as lutas com criaturas perigosas, com jogadores aprendendo combos devastadores e abrindo pacotes para obter novas cartas que melhoram seus decks.

Litany é um herdeiro de Balatro, enfatizando a ideia de "quebrar" o game descobrindo combos que escalam de formas impressivas. Isso convida o jogador a testar novas estratégias, impactando positivamente a rejogabilidade e a experiência sem depender de uma conexão com a internet.


Sophie: Starlight Whispers


É uma alegria ver um game dublado em português porque isso movimenta outro setor da indústria no qual eu gosto muito. Sophie: Starlight Whispers é um metroidvania que tal como nome diz, coloca o jogador no comando da jovem Sophie. Numa jornada para livrar o reino de Sharan de criaturas sombrias, colecionando feitiços para usar a medida que diferentes desafios aparecem. Falando em aparecer, um grande destaque da primeira impressão que o game passa são os cenários - muito bonitos, bem feitos, com uma atmosfera de sonho.

Como um metroidvania pede, as áreas de Sophie: Starlight Whispers são interligadas. Cada constelação que o jogador encontra revela mais sobre Sharan e seus habitantes. É uma empolgante junção de beleza e desafio que levam por um mundo de narrativa no qual a presença de outras pessoas além do próprio jogador não se faz necessária


Ghosts With Hats


Ghost With Hats é uma surpreendente mistura de humor, esporte, e feelings. Em um mundo no qual os humanos foram transformados em humanos, Linda quer descobrir o motivo disso ter acontecido. A trama evolui através de corridas que acontecem em 24 pistas cheias de armadilhas, atalhos e colecionáveis. Jogadores podem escolher um entre seis personagens, e personalizar a árvore de habilidades no estilo defensivo ou ofensivo. 

O catch mais interessante do game é propor que em certos momentos os personagens estarão diante de do grande desafio de seguir em frente. É algo que mexe muito com a minha história e a de muita gente, sem a necessidade de um servidor.


A Tale of Silent Depths


O oceano inspira inúmeros games com a sua imensidão misteriosa e assustadora. A Tale of Silent Depths explora esse ambiente num RPG tático de combate em turnos que se passa no fundo do oceano. Neste mundo pós-apocalíptico o mundo se afogou e agora vive dentro de Arcas Colossais. O jogador atua como capitão de uma destas sociedades flutuantes coletando recursos, saqueando destroços e buscando relíquias capazes de mudar a ordem do poder nessa sociedade.

Tudo isso é interessante, mas o ponto alto de A Tale of Silent Depths é o fato do game usar geração procedural. Ou seja - o mapa muda a cada vez que você joga, com novos destroços, pontos de interesse e ruínas. Por ter um oceano que está sempre mudando o game torna um ecossistema já intimidador ainda mais perigoso. Com isso ele ganha uma imprevisibilidade empolgante que faz a necessidade de ter um multiplayer se torna apenas uma vaga ideia.


Num momento em que os estúdios apostam em "games infinitos," uma enxurrada de eventos e internet a todo momento, estes títulos brasileiros vão na contramão. Eles mostram que existe espaço para experiências que não precisam de plateia - e sim de começo, meio e fim. Isso é claro, sem esquecer de um mundo marcante, mecânicas interessantes, ou de provocar emoções. Para estes games é mais do que suficiente.