Xadrez, RPG em texto e câmera isométrica: esses games indies mostram como ideias clássicas ainda podem render experiências interessantes.
Uma das coisas que eu mais curto em acompanhar os games indies é a dança entre ideias doidas e clássicas. Não é raro desenvolvedores lançarem games fora da curva como Untitled Goose Game, ou o impressionante Five Nights at Freddy's - uma versão bem assustadora do pique-esconde, basicamente. A filosofia "e se a gente fizer isso de um jeito diferente?" é a base desse segmento da indústria dos videogames.
Pensando nisso, a Pessoa que Vos Fala™ juntou três jogos que resgatam ideias muito conhecidas e criam a sua própria versão delas. São projetos totalmente diferentes entre si, mas eles possuem o que todo videogame precisa: a vontade de proporcionar um momento divertido ao jogador.
Gabby's Odyssey
Uma coleção de boas referências
Antes do mundo aberto virar uma febre entre os desenvolvedores, uma técnica de design muito utilizada -que ainda existe- é a câmera inclinada. Isso ficou conhecido como câmera isométrica, que cria a sensação do game ser um diorama vivo. Um exemplo de game que faz isso é Super Mario RPG, criando um mundo bem detalhado onde tem exploração, combate e puzzles coexistindo sem fazer bagunça. Adoro jogos isométricos porque maquetes e dioramas são duas coisas que eu gosto muito mesmo.
Essa é a inspiração mais marcante de Gabby's Odssey, que usa a câmera isométrica pra contar a história da heroína titular e do irmão mais novo. Eles são transportados para o mundo mágico de Larion, que visualmente tem as cores marcantes de Banjo-Kazooie e o sentimento das mecânicas de The Legend of Zelda: A Link to the Past. É algo que me agrada, pois o game usa linguagens confortáveis pra contar uma história carismática, que tem aventura, mas também é aconchegante
Chess of Mana
A reinvenção de um clássico milenar
Eu acho xadrez um dos jogos mais estranhos que existem. Você consegue explicar as regras dele em alguns minutos, incluindo o principal objetivo - deixar o rei adversário sem escape, o famoso xeque-mate. Apesar disso ele tem uma quantidade tão grande de estratégias possíveis que tornam o jogo ao mesmo tempo bem simples e muito complexo. Essa mistura estranha faz o xadrez um dia aparecer, virar o novo vício da internet, e desaparecer como se nada tivesse acontecido e sem nenhum problema.
Com isso, o xadrez deixou de ser um jogo e virou uma lingaguem de design usada em muitos games como Chess of Mana. O game brasileiro pega o tabuleiro e as regras do xadrez, e mistura ao combate de fantasia entre celtas e orcs. Essa combinação efetiva de formato torna uma ideia padrão, o combate medieval, em algo mais interessante. O game cria ainda mais curiosidade porque tem algo que não existe no xadrez: as peças podem voltar ao tabuleiro, aumentando a rejogabilidade.
Kardia: The Winds of Fate
Um game que deveria aparecer mais vezes
Jogos em texto hoje existem em vários formatos, como as visual novels. Entretanto, o começo é de um bom tempo atrás - 1976, quando foi lançado Colossal Cave Adventure. O game é considerado o pai das aventuras de texto, indo totalmente na contramão do universo cheio de elementos de RPGs como Diablo 4 ou Fallout 76. Motivo? Ela se desenrola majoritariamente em texto, apostando na força do roteiro fazer o jogador imergir, imaginar o que está sendo dito e o que não está sendo dito.
Esse conceito foi abraçado fortemente pelos CRPGs, como é o caso de Kardiya: The Winds of Fate. Me chama atenção que esse game se esforça pra ser bem perto do que é um RPG de papel, caneta e um dado. Nele o jogador escolhe e molda sua aventura com base nos itens que encontra e forma laços com os companheiros. O recurso mais legal é o clássico dado. Role o dado, tire um número que você não quer, e tente contornar a frustração não com um save state, mas com criatividade.
Eu sempre bato nessa tecla porque ela é bastante necessária: quando a gente pensa nos games como uma forma de arte, o que não deixa de ser verdade, existe um risco perigosíssimo. Acaba se criando a ideia de que todo game só pode ser arte se inventar algo totalmente novo. E tal como eu disse no artigo dos games inspirados em shooters dos anos 2000, as vezes é só sobre pegar uma boa ideia antiga e virar ela de cabeça pra baixo.
É revolucionário? Não. É eficiente? Geralmente sim. O resultado é curioso, e se você gosta de projetos que te deixam hm, isso é legal, vale a pena prestar atenção nesse tipo de game.






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