O terceiro single lançado pela Tarja me conquistou todo dia um pouco, e fez lembrar do quão importante é ouvir música com paciência.

Quando a Tarja lançou "The Trace Outlives," terceiro single do álbum Frisson Noir, eu fiquei bem hm - o famoso hm que dá as caras quando alguma coisa me puxa. Nesse caso é porque assim como as faixas que a cantora divulgou antes, ela possui a mesma característica: "The Trace Outlives" melhora a medida que você escuta a música mais vezes.

Músicas que crescem com o tempo

Isso é muito legal muita porque gente, inclusive eu, chega com a régua da expectativa no alto quando vai ouvir uma música nova. A régua sobe ainda mais quando é um dos seus artistas favoritos, tipo é o meu caso de pessoa que absolutamente adora a Tarja. Então tem o risco de virar um "acerte ou caia": ou a música acerta de cara ou você esquece. Às vezes a gente não dá tempo pra ela crescer, o que pode nos roubar vários momentos legais.

A Tarja teve a ideia de adicionar um shamisen, o que me chamou a atenção. Não é o tipo de primeira escolha: quando você quer fugir do metal geralmente adiciona um piano, um violino, uma flauta. O shamisen vira destaque, gruda na sua cabeça, porque a Sayo Komada não brinca em serviço. Mas olha que bacana: ela não ofusca a banda nem a Tarja. É quase como um maestro e uma orquestra: são duas partes diferentes, mas que precisam uma da outra pra funcionar.

Quando "The Trace Outlives" ficou ainda melhor

Uma coisa que eu fiquei intrigada demais é a letra com mil significados possíveis. O que mais ficou na minha cabeça é da mulher que sai de um relacionamento tóxico, até porque o clipe da música reforça isso de alguma forma. Sim, a Tarja é casada com o mesmo parceiro desde a época do Nightwish. Mas desde que a Céline Dion gravou "Lying Down," uma música fantástica sobre esse tema, e ela foi casada com o Renée até o último dia dele? Eu não duvido de mais nada.

Só que ai veio outra surpresa pra melhorar a música que já era boa: a Tarja explicou o conceito da letra. E não, não é sobre relacionamentos ruins - a inspiração foi o johatsu, um fenômeno social japonês onde as pessoas desaparecem sem deixar rastros, criando novas vidas e identidades. É algo que de certa forma conversa com a impressão que eu tive antes, e me fez gostar ainda mais da música porque é uma inspiração bem interessante.


"The Trace Outlives" é a minha favorita dos três singles do Frisson Noir, superando "At Sea." Essa foi outra loucura: como assim o seu primeiro single é uma faixa de 10 minutos? Mas é a Tarja, ela pode. "The Trace Outlives" tem duração de 5 minutos, mas são igualmente bem aproveitados. 

São três músicas curiosas - juntando com "I Don't Care" - porque a Tarja não fez nada escandaloso. Ela só inverteu a prioridade nos arranjos: orquestral era dominante, sentou no carona. Aí parte metal sentou no banco do motorista. Um detalhe, mas que fez uma diferença imensa.

Ela já explorou essa ideia em músicas feito "Demons in You," "In For a Kill" e "Tears in Rain." Mas focar um álbum inteiro nisso? É um diferencial que ela não tinha explorado, e faz muito sentido pro momento da carreira da Tarja. É tipo uma evolução natural da sonoridade da finlandesa, e uma que eu sempre quis ouvir. Então se demorou tanto pra isso acontecer, nada mais justo do que curtir sem pressa.