Esses games mostram que o visual também é parte da experiência, com estilos indo do aconchegante ao absurdo com muita facilidade.

Boas ideias no mundo dos games não se baseiam só em mecânicas criativas. Embora elas sejam uma parte importante, isso não teria graça sem uma direção de arte que te convide a olhar para esses mundos. Não faltam bons exemplos: o medieval fantástico de Elden Ring, o caos urbano colorido de Jet Set Radio, o estilo cartunesco espirituoso de TOEM. Você escolhe.

Neste novo Radar Games o Café Nerd apresenta quatro títulos independentes cujo foco não está em ter mecânicas mirabolantes. O principal apelo deles é a direção de arte curiosa, que faz sorrir quando a gente pensa em como os videogames misturam diferentes formas de expressão de um jeito único.

The Rabbit Haul
Design leve e divertido


A Caldera Interactive escolheu uma estética super adorável pra The Rabbit Haul, game sobre um coelho que durante o dia cuida da fazenda, e a noite defende ela do ataque de guaxinins. É um misto de Stardew Valley e tower defense acessível e desafiador, com o visual de livro infantil - em especial esses que tem ilustração em alto relevo.

O game aposta em cores vivas e ilustrações fofas que remetem ao lúdico Quando a noite chega, algo curioso acontece: as sombras continuam se comportando como na vida real. Uma vez que o mundo de The Rabbit Haul não tem profundidade e funciona como um teatrinho de papel, é muito bacana de observar esse contraste.
 


Silver Pines
Clima sombrio e cinematográfico


Aqui já é o caso de "beleza assustadora." Silver Pines é um terror de sobrevivência situado numa cidade pequena dos Estados Unidos - quase como Arquivo X tivesse virado um game. A primeira escolha estética que mais atrai o nosso olhar é a câmera lateral, criando uma tensão extra na forma como a ação é mostrada. A escolha não é mero acaso, pois tanto no metroidvania quanto no terror, o enquadramento é algo fundamental pra experiência.

Mas a câmera não é a única boa escolha dos desenvolvedores, que apostam em um visual noir com aura anos 90. Sou uma grande fã desse tipo de direção de arte desde quando joguei Tails Noir, pois as sombras deixam tudo mais dramático, menos alegre - o que faz sentido. Por serem ambientes mais escuros, qualquer ponto de cor se destaca ainda mais.



Mexican Ninja
Não deveria funcionar, mas funciona


Ideias muito diferentes podem dar muito errado ou virar algo memorável. Mexican Ninja aponta forte para o segundo caso ao juntar a estética ninja, mais misteriosa e letal, com a mexicana, cheia de cores e exagero carismático. Essa mistura não é uma escolha acidental: na história do game os narcos e yakuzas se uniram e formaram um novo regime feudal. O nome dessa nova classe dominante? Narkuzas. Então a trama justifica o absurdo divertido.

O resultado é um game cheio de atitude nos cenários, no design dos personagens e nos efeitos das habilidades. É como a direção de arte de Streets of Rage 4 com uma dose de bom humor irresistível, e inimigos absurdos dos anos 90 - pense em Cadillacs and Dinosaurs ou Double Dragon.



Office Chair Curling
O melhor game de todos os tempos da última semana


Uma coisa que o cenário independente entende bem é transformar ideias simples em gameplay - Peak é um exemplo recente de uma longa lista. Mas Office Chair Curling vai além e pega duas coisas que nunca se cruzariam em um dia comum: curling, e o ato universal de deslizar numa cadeira de escritório. Dá pra jogar e garantir um mundo de risadas porque todo mundo sabe - curling é o melhor esporte de inverno.

Só esse detalhe já conquista a simpatia do jogador, mas o game fica ainda melhor quando você observa o visual simples, monocromático. Parece algo saído direto do famoso Brick Game 9999 in 1, o "Nintendo Switch do povo," lembrando a época do Tamagochi e outros brinquedos digitais.


Dá gosto de ver games que fazem do seu estilo mais do que "ser bonito." Essa beleza não precisa ser uma pintura de Michelangelo em nível de elegância e classe - embora isso tenha valor. O erro é pensar que se um game não é assim, ele "é ruim." A arte está na diversidade que um estilo pode ser nostálgico, tipo um brinquedo dos anos 90, ou pode lembrar um livro infantil.